No meio educacional este assunto é, de um modo geral, superficialmente debatido. Além da falta de clareza e consenso a respeito do significado do termo indisciplina ou disciplina, a maior parte das análises parece expressar as marcas de um discurso fortemente impregnado pelos dogmas e mitos do senso comum (nem sempre de bom senso) (REGO, 1995 apud Aquino 1996,) [1]
Ainda segundo Rego[2](1995), o próprio conceito de indisciplina, como toda criação cultural, não é estático, uniforme, nem tampouco universal. Ele se relaciona com o conjunto de valores e expectativas que variam ao longo da história, entre as diferentes culturas e numa mesma sociedade: nas diversas classes sociais, nas diferentes instituições e até mesmo dentro de uma mesma camada social ou organismo. Também no plano individual a palavra indisciplina pode ter diferentes sentidos que dependerão das vivências de cada sujeito e do contexto em que forem aplicadas.
De acordo com o dicionário o termo disciplina pode ser definido como ‘regime de ordem imposta ou livremente consentida. Ordem que convém ao funcionamento regular de uma organização (militar, escolar, etc.). Relações de subordinação do aluno ao mestre ou ao instrutor. Observância de preceitos ou normas. Submissão a um regulamento’. E disciplinar, o ato de sujeitar ou submeter à disciplina: disciplinar uma tropa. Já o termo indisciplina refere-se ao ‘procedimento, ato ou dito contrário à disciplina; desobediência; desordem; rebelião’. Sendo assim, indisciplinado é aquele que ‘se insurge contra a disciplina’. (FERREIRA, 1986, p.595 apud AQUINO, 1996, p.85).
Algumas mudanças de um tempo para cá no currículo referente à Pedagogia e o Magistério não tiveram interesse por uma formação em que o professor realmente fosse preparado para reger uma sala de aula, e ter a devida atenção aos alunos, como a indisciplina, por exemplo, que não é entendida pelos docentes, pois, na observação feita pude perceber que, por exemplo, em casos em que o aluno se dispersava não era indisciplina, mas um comportamento causado pela indiferença dos pais e da própria professora aos problemas dele não ajudando a este tipo de aluno prejudica-no e agravam o problema.
O que realmente os professores esperam é ter em suas salas de aula alunos não humanos, sem as emoções humanas, e sim, fabricados de casa, quietos e não o contrário, como diz o Wallon: ‘... o indisciplinado é o que se rebela, que não acata e não se submete, nem tampouco se acomoda, e, agindo assim, provoca ruptura e questionamentos. (REGO, 1995 ap. Aquino 1986:85)
O aluno que se insurge contra as regras, tem seus próprios conceitos, confunde a esses professores despreparados para esse aluno novo, que não reconhece autoridade, muitas vezes nem da própria família, que dirá do professor.
Wallon (1975), diz: “É curioso observar que, nesta perspectiva, qualquer manifestação de inquietação, questionamento, discordância, conversa ou desatenção por parte dos alunos é entendida como indisciplina, já que se busca[3]‘obter a tranqüilidade, o silêncio, a docilidade, a passividade das crianças de tal forma que não haja nada nelas nem fora delas que as possa distrair dos exercícios passados pelo professor, nem fazer sombra à sua palavra’”.(Id. Ibid, p.85-86)
“...O desempenho do professor pode ser controlado pela sua necessidade de obter o salário. Em troca deste, a escola, muitas vezes, lhe impõe certas exigências: realizar as formalidades burocráticas, dar as aulas, cumprir o programa e, se conseguir, manter os alunos bem – comportados e fazê-los estudar”.
(Reinaldo Matias Fleuri, s/a, p.43)
“A instituição escolar, ao impor autoritariamente estas exigências ao professor, investe-o do mesmo tipo de autoridade. Uma autoridade cuja força reside, sobretudo no fato de que ele detém, por obrigação institucional, os instrumentos de controle pedagógico em sala de aula (a caderneta de chamadas, o poder de conferir nota e de reprovar), mediante os quais pode exigir submissão dos alunos a seu programa”. (Idem Ibid.)
Uma das abordagens, mais importantes é a que está no sentido de Vygostky e La Taille ‘... O limite situa, dá consciência de posição ocupada dentro de algum espaço social: a família, a escola, e a sociedade como um todo’. (LA TAILLE, p.9, grifos do autor ap. REGO 1995 ap. AQUINO, 1996, p. 86)
Partindo destas premissas, no plano educativo, um aluno indisciplinado não é entendido como aquele que questiona, pergunta, se inquieta e se movimenta na sala, (Isto porque entendemos que, no processo de construção de conhecimentos, os alunos devam ter participação ativa. Sendo assim, as inquietações, as movimentações em sala, as interações entre as crianças, não se confundem com atos indisciplinados já que são indicadores de envolvimento por parte dos alunos.), mas sim como aquele que não tem limites, que não respeita a opinião e sentimentos alheios, que apresenta dificuldades em entender o ponto de vista do outro e de se auto governar (no sentido expresso por Vygotsky, 1984), que não consegue compartilhar, dialogar e conviver de modo cooperativo com seus pares. Nesse caso, a disciplina não é compreendida como mecanismo de repressão e controle, mas como um conjunto de parâmetros (elaborados pelos adultos ou em conjunto com os alunos, mas principalmente internalizados por todos), que devem ser obedecidos no contexto educativo, visando a uma convivência e produção escolar de melhor qualidade. Deste ponto de vista, a disciplina é concebida como uma qualidade, uma virtude (do indivíduo ou de um grupo de alunos) e, principalmente como um objetivo a ser trabalhado e alcançado pela escola. Como decorrência, a disciplina, ao invés de ser compreendida como um pré-requisito para o aproveitamento escolar, é encarada como resultado (ainda que não exclusivo) de prática educativa realizada na escola. (REGO, 1995, ap. Aquino 1996, p. 86-87)
Um outro aspecto capaz de influenciar significantemente o processo educativo desenvolvido na instituição escolar diz respeito à visão dos diferentes elementos da comunidade escolar, (professores, técnicos, pais e alunos) sobre as causas da indisciplina. Entendemos que é necessário identificar, principalmente, os pressupostos subjacentes às explicações geralmente manifestas pelos educadores, que acabam por revelar, ainda que de maneira implícita, determinadas visões sobre o processo de desenvolvimento pela escola. (REGO, 1995b, ap. Aquino, 1996, p.87)
Para Kramer[4] (1993) se os estudos históricos nos ajudam a situar a proposta pedagógica no contexto político mais amplo; se os estudos sociológicos orientam nossa definição sobre o papel que atribuímos à escola e quanto aos conhecimentos a que deve dar acesso; se, ainda, as pesquisas de cunho psicológico nos fornecem subsídios valiosos para planejar e desenvolver nosso currículo, os estudos antropológicos exigem que levemos em conta o contexto de vida mais imediato das crianças e as próprias características específicas dos professores e da escola como instituição.
Isso significa reconhecer que as crianças são diferentes e têm especificidades, não só por pertencerem a classes diversas ou por estarem em momentos diversos em termos do desenvolvimento psicológico. Também os hábitos, costumes e valores presentes na sua família e na localidade mais próxima interferem na sua percepção do mundo e na sua inserção. E, ainda, também, os hábitos, valores e costumes dos profissionais que com elas convivem no contexto escolar (professores, serventes, supervisores etc.) precisam ser considerados e discutidos.’(Kramer, Sonia, 1993, p.22)[5]
Em escolas tradicionais, encontramos, por exemplo, professores com mentalidades tradicionais, que inibem qualquer ação do aluno, principalmente a sua criatividade. Frienet propõe que a própria escola seja criadora de seus próprios problemas. Frienet[6] (1896-1966) diz:
‘No que diz respeito à sua visão de educação, é preciso destacar as críticas que dirige à escola tradicional, inimiga do tatear experimental’, fechada, contrária à criatividade, á descoberta, ao interesse e ao prazer infantil. Nesse sentido, Frienet denuncia as práticas, os manuais e os prédios escolares como os produtores de ‘doenças’ escolares graves, tais como as dislexias, anorexia escolar etc., mas critica também as propostas da escola Nova, em particular Decroly e Montessori, questionando seus métodos por suporem materiais, local e condições especiais para a realização do trabalho pedagógico. Para Frienet, as mudanças profundas na educação deveriam ser feitas pela base – pelos próprios professores.’
A ênfase maior é dada ao trabalho: as atividades manuais são consideradas tão importantes quanto as intelectuais, e a disciplina e a autoridade são frutos do trabalho organizado. (Frienet, 1971 ap. Kramer, 1995, p.33-34)
É importante que o professor mantenha-se interessado no aluno, como ser humano, no seu desenvolvimento. A falta de preparo do professor o torna preso a metodologias e os torna regressivos, exigindo do aluno, atitudes exigidas a eles pela escola. A disciplina não é conseguida forçando-se uma atitude e sim construindo organizacialmente segundo Frienet uma, o que só é possível com o professor, desde que este esteja capacitado.
Segundo Aquino (1996)[7] os relatos dos professores testemunham que a questão disciplinar é atualmente, uma das dificuldades fundamentais quanto ao trabalho escolar. Segundo ele, o ensino teria como um de seus obstáculos centrais a conduta desordenada dos alunos, trazida em termos como: bagunça, tumulto, falta de limite, maus comportamentos, desrespeito às figuras de autoridade.
De um lado o professor querendo se impor e de outro a resistência do aluno em não se deixar dominar. O que gera conflito e faz com que os tomem atitudes drásticas como exercer autoridade sobre eles, para dominá-los ou domesticá-los. A ineficiência de recursos que teria que ter recebido em sua formação, leva-os a tomar atitudes muitas vezes mais reprováveis que a própria indisciplina dos alunos.
Numa perspectiva genericamente psicológica, a questão da indisciplina estará inevitavelmente associada à idéia de uma carência psíquica do aluno. Entretanto, vale advertir desde já que o fenômeno não poderá ser pensado como um estado ou uma predisposição particular, isto é, um atributo psicológico individual (e, no caso, patológico), mas de acordo com seus determinantes psicossociais, cujas raízes encontram-se no advento, no sujeito, da noção de autoridade. (Aquino, 1996, p.39)
Desse ponto de vista, o reconhecimento da autoridade externa do professor, no caso pressupõe uma infra-estrutura psicológica, moral mais precisamente, anterior à escolarização. Esta estruturação refere-se á introjeção de determinados parâmetros morais apriorísticos, tais como: permeabilidade a regras comuns, partilhar de responsabilidades, cooperação, reciprocidade, solidariedade etc. Trata-se, pois, do reconhecimento da alteridade enquanto condição sine qua non para a convivência em grupo e, conseqüentemente, para o trabalho em sala de aula. (Aquino, 1996, p.39)
É interessante ressaltar que para comportamentos indisciplinados não há apenas uma explicação, e sim vários fatores que a provoca. Jose & Coelho, mostra a necessidade de se conhecer o aluno:
“É de suma importância, portanto, que o professor conheça o processo de aprendizagem e esteja interessado nas crianças como seres humanos em desenvolvimento. Ele precisa saber o que seus alunos são fora da escola e como são suas famílias”.
(1995, p.13)
Em observações foi notado exatamente o contrário, os pais queriam saber como estavam seus filhos, mas os professores não queriam saber da vida de seus alunos além da sala de aula.
[1] Teresa Cristina R. Rego – Pedagoga, mestre e doutoranda pela Faculdade de Educação da USP.
[2] Autora de Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação- Vozes, 1995.
[3] Rego, 1995, ap. Aquino, p.83
[4] Professora universitária. Pesquisadora nas áreas de educação pré-escolar, linguagem e alfabetização, formação de professores.
[5] Sonia Kramer (coordenadora); Pereira; Oswald; Assis – Uma alternativa curricular para a educação infantil – ed. Ática, 6 ª ed., 1993, São Paulo, p.22
[6] Frienet, Celestin, 1971 ap. Kramer, Sonia,1995, p.33-34
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