quarta-feira, 4 de maio de 2011

A FORMAÇÃO DO PROFESSOR O PAPEL DA FORMAÇÃO BÁSICA NA APRENDIZAGEM PROFISSONAL DA DOCÊNCIA (APRENDE-SE A ENSINAR NO CURSO DE FORMAÇÃO BÁSICA?)



 

Se ouve de ex-alunos, costumeiramente indignados com seus colegas professores e que se apresentam como críticos, inventivos, abertos, inovadores, durante o período em que freqüentam o curso de formação, e que, no momento seguinte, quando já inseridos na profissão, ignoram as duras críticas que fizeram à escola e aos seus professores e reproduzem o que já se tornou habitual no âmbito escolar tornando-se, eles próprios, objeto das críticas, o que pode ser exemplificado pelo estudo de França (1995):
Pudemos verificar, ao longo deste estudo, que os alunos do Curso de graduação em Pedagogia-ICHS-CUR-UFMT, em sua maioria, perdem o contato com a universidade depois de graduados. O distanciamento entre o egresso e sua instituição de origem, aliado a valores sócio-culturais, os levam a abandonar uma possível mentalidade científica adquirida na graduação e regredir a uma prática vinculada ao senso comum.
(França, 1999  ap. MIZUKAMI & REALI, 2002, p.217)

Constatações como as apontadas acima parecem confirmar opiniões de que a formação básica tem um papel irrelevante, se não desprezível, no processo de aprendizagem profissional dos professores. Adepto dessa opinião, Esteve (1999) se considera (...) profundamente convencido de que os cursos de formação de professores não mudam a dinâmica das aulas nem tampouco o trabalho cotidiano do professor(...) a única que, de verdade, muda a atuação do professor ou professora é a reflexão sobre sua própria ação, com a ajuda de outros colegas mais experientes... (Esteve, ibid, p.218).
Carvalho (1994), por exemplo, sugere que os conhecimentos sobre o ensino são interpretados pelos professores conforme seus próprios valores, experiências, conhecimentos prévios, modos de pensar e agir, o que indica que podem, em maior ou menor grau, validar ou desconsiderar o saber de sua formação específica.
Torres (1999), tal como Carvalho, destaca a relevância da biografia escolar do docente na definição de suas práticas educativas e estilos de ensino. (...) Para identificar essa formação docente que ocorre ao longo da vida e em vários contextos e instituições, Torres adota o conceito de aprendizagem permanente:
Abordamos a questão da formação docente dentro do conceito de aprendizagem permanente, entendendo que os saberes e competências docentes são resultado não só de sua formação profissional, mas de aprendizagens realizadas ao longo da vida, dentro e fora da escola e no exercício da docência (1999, ap. ibid).
Cavaco (1995), a partir de seus estudos sobre o ciclo de vida dos professores, constata que o jovem professor, diante da necessidade de encontrar soluções para as complexas situações com que se depara em sala de aula, é tentado a recuperar as suas experiências de aluno e a elaborar formas de atuação rotineiras que se afastam das propostas teóricas inovadoras anteriormente defendidas, o que revela a enorme influência do período de escolarização dos futuros professores sobre suas concepções e práticas docentes – a exemplo do que indica o depoimento de Martín (1998) e o estudo de França (1995).
Com base nas afirmações acima se pode interpretar que a aprendizagem da docência ocorre em vários contextos e instituições e ao longo de toda a experiência escolar e não escolar dos futuros professores. Isso revela, entre outras coisas, que os cursos de formação docente podem favorecer a aprendizagem profissional dos professores, tendo em vista certas condições e dentro de alguns limites. (ap. Mizukami e Reali, 2002, p.219)
A preocupação com a aprendizagem profissional da docência se insere no âmbito das preocupações com a melhoria da qualidade da educação, visto que a formação de professores[1] é, reiteradamente, apontada como elemento fundamental para sua ocorrência. Ainda que não sejam fatores exclussivos e/ou determinantes nos processos de melhoria do ensino, os professores e sua formação não podem ser ignorados nesses processos. Entretanto, se, por um lado há certo consenso na defesa da formação sólida e consistente dos professores como condição de um ensino mais significativo, por outro ainda é preciso aprofundar os estudos sobre a aprendizagem profissional da docência, em razão de que não se dispõe de uma teoria geral de conhecimentos sobre esses processos de aprendizagem (Torres, 1999, García, 1999, Mizukami, 2000 ap. MIZUKAMI & REALI 2002, p. 220)
A prática docente, por sua vez, é também importante fonte de aprendizagem, na medida em que gera, integra, revisa, rejeita ou convalida diversos tipos de saberes. A prática docente profissional é, então, ao lado de toda a experiência pessoal dos professores, contexto privilegiado de aprendizagem, na medida em que estes são levados a enfrentar e lidar com situações multifacetadas e sempre dinâmicas da escola e da sala de aula.
É uma falsa crença imaginar que, por exemplo, um professor formado na cultura escolar tradicional aceite, compreenda e adote a teoria construtivista como sua, de modo que ela passe a orientar as rotinas de sua classe, pelo simples fato de haver entrado em contato com ela. Isso confirma a opinião de que os professores, para além de meros consumidores de conhecimentos acadêmicos, a eles apresentados em cursos de formação inicial ou em serviço, são elaboradores ativos de conhecimentos profissionais[2]. Enfim, os professores possuem concepções, crenças, teorias, idéias sobre o trabalho docente. Essas concepções, adquiridas basicamente ao longo de sua formação ambiental, de sua biografia escolar, servem para guiar a ação docente e não se modificam somente pelo processo de formação específica. Pórlan (1999) considera que não basta que o professor tenha acesso a novos conhecimentos acadêmicos para compreende-los, aceita-los e buscar colocá-los em prática. O fato de reconhecer que não se sabe algo não desperta, necessariamente um desejo de aprender, nem tampouco de substituir determinadas concepções por outras. Essas posições são reafirmadas por Marcelo (1998):
As pesquisas realizadas mostram que o conhecimento dos professores em formação está associado a situações da prática, ainda que as relações entre pensamento e prática sejam pouco claras e conhecidas. Demostrou-se que podem ocorrer contradições entre as teorias expostas e as teorias implícitas e que a mudança no conhecimento dos professores em formação não conduz necessariamente a mudanças em prática (1998, p.52 ap. MIZUKAMI & REALI, 2002, p.222)
Mizukami (2002) destaca a existência de uma formação cotidiana[3] no âmbito da profissão e da escola, de tal modo que:
Mesmo considerando-se situações em que a formação inicial possua a qualidade necessária para instrumentalizar os docentes, grande parte de sua formação se dá na escola em que trabalham e essa se constitui, portanto, em um espaço privilegiado de reflexão pedagógica, condição imprescindível para sua formação (1995, p.6 ap. ibid, p. 222).
Os professores, portanto, vivenciam determinadas experiências educativas, seja ao longo de sua vida escolar e pessoal ou profissional, durante as quais adquirem crenças, teorias didático-pedagógicas e esquemas de ação. Isso leva a crer que quando os docentes aprendem não tendem a fazê-lo somente em termos de conhecimentos acadêmicos, mas vinculando a aprendizagem à sua prática de alunos e de professores, ou seja, os docentes têm uma visão prática da sua ação e do seu conhecimento (o que devo fazer, a atividade que devo programar). Nesse sentido, os professores constroem saberes e práticas ao longo de sua trajetória profissional que são subvalorizados pelos formadores e pelos meios de comunicação mas que, no entanto, constituem os fundamentos de sua prática e competência profissional (Hernández, 1998, p.12, ap. MIZUKAMI & REALI, 2002, p.223)
Essa forma de compreensão de aprendizagem docente favoreceu o delineamento de uma perspectiva de concepção e investigação que destaca o estreito vinculo entre as ações e a reflexão dos professores, assim como a elaboração de propostas de formação e profissionalização docente que atribuem destaque e valor à prática, encarada como instância de auto-análise e reflexão do trabalho docente. Nessa perspectiva, o professor é concebido como um profissional prático-reflexivo e investigador, capaz de garantir a integração entre reflexão e ação, de modo a tornar-se intérprete dinâmico e agente ativo de sua própria realidade. (...) Ainda que haja, entre essas diversas expressões, marcas que as diferenciem, existe uma intenção que as une: formar professores que sejam capazes de refletir sobre a própria prática, na expectativa de que a reflexão-na-ação e sobre-a-ação sejam convertidas em instrumentos de desenvolvimento de seu trabalho. (ap. ibid, p.224)
Acredita-se que quando o professor reflete na e sobre a sua ação, ele converte-se em um investigador na sala de aula e torna-se capaz de redefinir suas formas e esquemas de trabalho em proveito dos processos de aprendizagem e de desenvolvimento de seus alunos.(Ibid, p. 224)
Cada professor, portanto, possui uma teoria prática sobre o que seja ensinar, responsável por orientar sua atividade em sala de aula, de tal modo que pode-se afirmar que (...)as teorias práticas de ensino constituem o conhecimento profissional do professor (Mizukami et al., 1998, p.493 ap. MIZUKAMI & REALI, 2002, p.225)
Não se coloca em dúvida que a prática reflexiva é uma fonte de aprendizagem e de regulação do trabalho do professor, no entanto, essa convicção não pode ser justificativa do mito do valor da experiência, segundo o qual os professores são levados a acreditar que são as experiências profissionais que realmente os formam, de tal modo que o saber sistematizado, especializado e formalizado torna-se dispensável (García, 1999, p.95 ap. ibid, p. 225). A propósito, Pérez-Gómez alerta que (...) o conhecimento-na-ação só é pertinente se for flexível e se apoiar na reflexão na e sobre a ação (Pérez-Gómez, 1992, p.112 ap. ibid, p.225)
Não podem ser deixadas aos professores, sozinhos e aleatoriamente, as tarefas de indagação, reflexão e trocas, pois nem sempre eles se mostram sensíveis a problemas e conflitos que são centrais na profissão docente. Há que sensibiliza-los “de fora”. E estaria aí um dos papéis mais importantes da universidade: sensibilizar os professores, em sua formação não apenas inicial, como também na continuada, para os problemas e os contextos do ensino (Chakur, 2000, p.251 ap. ibid, p.225)
Das afirmações acima se pode concluir que a prática é um espaço especialmente importante para a construção da aprendizagem profissional docente. Entretanto, na perspectiva do paradigma do pensamento do professor, a prática não é concebida como atividade assistemática, acrítica, de mera aplicação de princípios teóricos, mas como oportunidade para se refletir e se construir conhecimentos.
Ainda  que valorizado, o saber da prática parece não estar sendo suficiente para dotar os professores das habilidades requeridas ao exercício de sua profissão. Por isso, eles não podem acomodar-se ao controle autoritário da prática, nem, tampouco, encarar as teorias como instrumentos de natureza normativa, a serem aplicados de forma direta e imediata.  A formação de professores inclui, pois, os saberes adquiridos na prática, mas, também, a aquisição de bases teóricas sólidas.
Isso significa considerar que os professores não adquirem consciência automática de como lidar com as situações de sala de aula e que nem sempre as concepções ambientais orientam a ação de maneira organizada e compreensiva, até porque não se pode ensinar aquilo que não se aprendeu. Por isso, os professores precisam dispor de um tempo formalmente estabelecido para compartilhar os conhecimentos que adquiriram ao longo do seu desenvolvimento escolar e profissional.
Então reconhecer que os professores aprendem na prática cotidiana da sala de aula, assim como em diferentes momentos e circunstâncias, não significa desconsiderar ou eliminar o papel específico que ocupa o curso de formação básica nessa aprendizagem. (MIZUKAMI & REALI, 2002, p. 226)
Dado ao caráter excessivamente acadêmico, os cursos de formação inicial de professores têm sido alvo de várias críticas. Eles são acusados de ignorar os conhecimentos práticos dos professores, de estar associados a abordagens transmissivas e tecnológicas, de ter pequena incidência no trabalho realizado pela escola, de ser responsáveis pela transmissão de conhecimentos interpretados como objetivos, absolutos, indiscutíveis, ignorando a concepção de que os tem como problemáticos, provisórios, construídos social e historicamente, sujeitos a influências de diversas ordens, dentre outras tantas críticas. (id. Ibid, p.227)
(...) o conhecimento científico que se transmite nas instituições de formação converte-se definitivamente num conhecimento acadêmico, que se aloja não na memória semântica, significativa e produtiva do aluno-mestre, mas apenas nos satélites da memória episódica, isolada e residual.
(Pérez-Goméz, 1992, p.108, ap. id ibid)

Por isso, um certo conjunto de pesquisas tem mostrado que as atitudes e conhecimentos veiculados pelos programas de formação inicial têm escassas probabilidades de serem incorporados no repertório cognitivo dos futuros professores, que acabam confirmando e reforçando o que já haviam experimentado como estudantes[4]. Ora, por essa razão s cursos devem ser negados enquanto instância de formação de professores? Como sugere Esteve (1998,1999).
As disciplinas acadêmicas oferecidas nos cursos de formação despontam como decodificadoras dos alunos, visto que permitem ampliar seu vocabulário, assim como o conhecimento básico dos processos em exame e os recursos necessários a analise das situações que caracterizam o contexto profissional. Salienta-se, pois, que cada disciplina dá ao sujeito não apenas conhecimentos específicos, mas também códigos e uma linguagem que lhe permite explicar e compreender a realidade, ao mesmo tempo que algumas estruturas próprias do pensamento e do desenvolvimento cognitivo. (Garcia, 1999, p.21 ap. MIZUKAMI & REALI, 2002, p.228)
O curso de formação, desse modo, se converte em contexto de aprendizagem, com potencialidade para favorecer o aperfeiçoamento pessoal e profissional dos indivíduos. De certo modo, a influência mais importante do curso de formação de professores é estimular a (...) capacidade para aprender e o desejo de exercer esse conhecimento. (Joyce & Clift, ap. Garcia, 1999, p.81, ap. id.ibid, p.228)
Além disso, perceber também as dificuldades do aluno, que só é possível se o professor for capacitado, segundo Drouet, as disciplinas Problemas de Aprendizagem deveria ser obrigatório em todos os cursos de magistério, ligada à Psicologia da Aprendizagem. O conhecimento dos distúrbios da aprendizagem que interferem no processo educativo é muito importante para que o professor compreenda as dificuldades dos seus alunos e possa ajudá-los a superá-las. Devemos pensar em distúrbios de aprendizagem em geral e não apenas em distúrbio de leitura e escrita, como se faz freqüentemente. Todos os distúrbios de saúde em geral, os problemas emocionais, intelectuais, neurológicos, educacionais e sócio-econômicos da família precisam ser conhecidos e pesquisados pelos futuros professores na prática educativa. Esse conhecimento também facilitaria a avaliação. (Drouet, 1990, p.196)
No entanto, os estudantes tanto mais terão oportunidade de conhecer, refletir, examinar, entender de forma mais significativa as leituras e discussões acadêmicas quanto mais os conhecimentos estiverem articulados à realidade da escola e da sala de aula. À luz dos conhecimentos acadêmicos pode-se entender melhor a realidade, mas à luz desta pode-se melhor entender aqueles. (MIZUKAMI & REALI, 2002, p.228)
Se o acesso aos conhecimentos acadêmicos, habitualmente favorecidos pelos cursos de formação, não é suficiente como instrumento de formação profissional, igualmente não o é o extremo oposto, ou seja, considerar que a formação acadêmica não tem valor e que só a prática tem densidade formativa, como sugere Esteve (1998,1999). Das contribuições dos vários autores citados anteriormente pode-se concluir que a prática escolar, por si mesma, não é capaz de promover conhecimentos amplos, sólidos e reflexivos sobre a realidade da escola e da sala de aula, pois as rotinas já consolidadas da  cultura escolar dominante acabam fazendo frente às possibilidades de reflexão crítica.
Ainda que não sejam adquiridas por adição ou substituição e não tenham necessariamente impacto direto na sala de aula, os autores citados, com claras e raras exceções, defendem o acesso dos professores os conhecimentos acadêmicos e às teorias interpretadas como ferramentas intelectuais capazes de enriquecer o pensamento e ação destes e lhes instruir na análise e compreensão da realidade pedagógica.
Segundo Masdevall (2003)[5], está faltando que os professores, aqueles que estão todos os dias na brecha do difícil ofício do ensino, expressem suas experiências e suas reflexões sobre a solução dos problemas que enfrentam nas aulas. Sua perspectiva é necessária não só porque com ela podem ajudar e estimular outros colegas, superando o típico “isolamento” do professor, obrigado a resolver seus problemas solitariamente, e a falta de registro de memória coletiva de experiências, características dessa profissão, mas também porque contribuirão dessa forma a encurtar a distância entre teoria e prática pedagógica. (Masdevall; Costa; Paretas, 2003, p.11)


[1] A aprendizagem profissional da docência é identificada de diferentes maneiras: saber ensinar implica ter o domínio do saber e saber fazer, do saber sistematizado e do saber escolar (Saviani, 1991, p.26 ap. MIZUKAMI & REALI, 2002, p. 219), dos conhecimentos teóricos e metodológicos e dos modos do fazer docente (Libâneo, 1991, p.71 ap. ibid), de novas competências para ensinar (Perrenoud, 2000, ap. ibid), de saberes pedagógicos (Pimenta, 1999 ap. ibid) ou, para usar a denominação adotada pela Comissão de Especialistas do Curso de Pedagogia, por exemplo, o desenvolvimento de competências, habilidades e o domínio de conteúdos básicos capazes de credenciar o pedagogo ao exercício de sua profissão (‘Diretrizes Curriculares para a Formação de Professores da Educação Básica’, MEC, 2000)
[2] (Porlán, 1999, Domingo, 1996, Hernández, 1998, Gómez, 1996, ap. MIZUKAMI & REALI, 2002, p. 221)
[3] A formação cotidiana é aquela que...se dá no exercício da profissão e, portanto, na inserção em determinadas instituições, na atuação em diferentes classes e séries de ensino e na interação com sujeitos concretos...(Mello, 2000, p.13 ap. MIZUKAMI & REALI, 2002, p.22)
[4] Garcia, 1999, Carvalho, 1994, Martins, 1998, França, 1995, Torres, 1999 ap. id ibid
[5] título: proposta de Intervenção na sala de aula 

INDISCIPLINA X PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM

 
O modo como interpretamos a indisciplina (ou disciplina), sem dúvida, acarretarão uma série de implicações à prática pedagógica, já que fornece elementos capazes de interferir não somente nos tipos de interações estabelecidas com os alunos e na definição de critérios para avaliar seus desempenhos na escola, como também no estabelecimento dos objetivos que se quer alcançar. (REGO, 1995 ap. Aquino, 1996)[1]
Segundo Drouet (1989)[2] todos os distúrbios – de fala, de audição, emocionais, do comportamento etc. – têm sua origem em causas diversas, porém todos eles se constituem em obstáculos à aprendizagem, prejudicando-a ou mesmo impedindo-a, cabe ao professor observar as crianças, perceber aquelas que apresentam problemas de aprendizagem e encaminha-los ao especialista adequado para diagnóstico e tratamento.
A relação da indisciplina com a dificuldade ou problema de aprendizagem se dá no campo da aprendizagem, pois é ai que tanto um como o outro é prejudicado, os dois problemas ficam emperrados neste mesmo ponto, um por ter realmente uma dificuldade e outro por recusar-se a aprender[3] por teimosia, motivo fútil ou mesmo por não se adequar ao método empregado pela professora ou escola.
Não foi encontrada uma explicação para que uma pudesse ser confundida ou entendida por dificuldade e indisciplina, mas uma formulação pessoal dos dois conceitos como pertencentes a um só, ou seja, indisciplina não está separada de dificuldade de aprendizagem e sim seja conseqüência desta.
Mas, uma vez tomamos a mesma questão da necessidade para o professor em ter uma base curricular suficiente para ministrar uma sala de aula, já que ser leigo poderia acarretar para estes e para seus alunos um fracasso como professor e conseqüentemente para seu aluno.
Ao ministrar uma sala de aula, notei o quanto faz falta esta base, como não tive disciplinas que me ajudassem a identificá-los, no primeiro momento deparei-me com alunos que a meu ver eram todos ou quase todos indisciplinados e só após ler vários livros sobre o tema, pude entender que certos alunos deviam ser observados não só naquele momento, mas em sue histórico escolar, seu comportamento desde então e o que ele é presentemente. Mas, as conseqüências de não ter essa base, fez com que tomasse a atitude que todos os professores tomam na escola pública a indiferença quanto ao ser humano discente e a imposição da disciplina através de castigos como encaminhar os ‘indisciplinados à secretária’ da escola. Percebi o quanto uma formação incompleta torna o professor incapaz de lidar com alunos principalmente se estes não forem os ideais, os que têm uma ficha corrida de problemas.




[1] Ap. Aquino, 1996 -

Indisciplina Na Escola-Alternativas Teoricas E Praticas, col. Escola, org. Aquino, Julio Groppa, Ed. Summus.p.87

[2] Drouet, 1989 -
Disturbios da Aprendizagem - Col. Educacao - Drouet, Ruth Caribe da Rocha
p.93.
[3] Aquino, 1996, grifos meus.

A IMPORTÂNCIA DE ENTENDER OS PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM DOS ALUNOS NA FORMAÇÃO DO PROFESSOR




Os problemas de aprendizagem referem-se às situações difíceis enfrentadas pela criança normal e pela criança com desvio do quadro normal, mas com expectativa de aprendizagem a longo prazo (alunos multirepetentes). (JOSÉ & COELHO, 1995, p.23).
Pela intensidade com que apresentam os sintomas e comportamentos infantis, pela duração que eles têm na vida escolar e pela participação do lar e da escola nos processos problemáticos, fica difícil para o professor diferenciar um distúrbio de um problema de aprendizagem. (id. Ibid).
Ao educador cabe apenas detectar as dificuldades de aprendizagem que aparecem em sala de aula, principalmente nas escolas mais carentes, e investigar as causas de forma ampla, que abranja os aspectos orgânicos, neurológicos, mentais, psicológicos adicionados à problemática ambiental em que a criança vive. Essa postura facilita o encaminhamento da criança a um especialista que, ao tratar da deficiência, tem condições de orientar o professor a lidar com o aluno em salas normais ou, se considerar necessário, de indicar sua transferência para salas especiais. (id. Ibid).
Nesse trecho começa a mostrar qual a importância, de se saber e identificar problemas de aprendizagem. Como o professor vai manter sua sala num nível educacional adequado se ele não souber onde está e qual é o problema e pedir auxílio ou uma outra exigência como a criança que foge do comportamento normal aceitável.
São inúmeros fatores que podem desencadear em problema ou distúrbio de aprendizagem. São consideradas fundamentais:
·         Fatores orgânicos: saúde física deficiente, alimentação inadequada, etc.
·         Fatores psicológicos: inibição, fantasia, ansiedade, angústia, inadequação à realidade, sentimento generalizado de rejeição, etc.
·         Fatores ambientais: o tipo de educação familiar, o grau de estimulação que a criança rebecebeu desde os primeiros dias de vida, etc. (Id.Ibid, p. 25).
Quanto aos distúrbios provocados pela própria escola e pelos professores, instalar um setor de orientação educacional, psicológica e pedagógica nas escolas ou para um grupo de escolas seria de grande ajuda. Os professores seriam orientados na adequação do programa, na elaboração de métodos a serem aplicados e na forma ideal de atender as crianças que apresentam problemas de aprendizagem.
A educação espacial, porém, ainda é uma utopia na realidade brasileira. Somente as classes sociais mais abastadas conseguem educar adequadamente uma criança com dificuldades de aprendizagem. Na escola pública, o professor deve contar com seus próprios conhecimentos e, ao detectar qualquer distúrbio, solicitar ajuda da família do aluno, para que, juntos, possam ajudar a criança a superar suas dificuldades. (Id. Ibid, p.25).
A questão é que devido à complexidade dos fatores apresentados como os problemas de aprendizagem, é tratado com descaso em algumas escolas públicas e os professores por sua vez não encontram apoio e estão despreparados para oferecer qualquer solução.
Outra questão percebida é a crítica às crianças que possuem algum problema que o professor ou desconheça ou não tolere, como a gagueira por exemplo.
A falta de atenção seletiva é um dos fatores decorrentes dos problemas de aprendizagem, e ocorre naturalmente nas escolas, sendo muitas vezes confundida com outros fatores. Muitos professores se queixam de seus alunos por não prestarem atenção as suas aulas, e quando perguntados não sabem nem se quer do que foi dito, se houvesse algum conhecimento por parte desses professores certamente saberiam que existem muitas explicações para tal atitude. Desde que seja função do professor observar e anotar questões sobre o seu aluno, seria importante que estes se preocupassem com os motivos, e para tal seria necessário que estivesse capacidade para tal avaliação.
“É função do professor verificar a existência de problemas visuais em seus alunos, através de observações de suas atitudes e rendimento escolar, além de aplicação de testes de acuidade.”
(Jose & Coelho, 1995, p. 143)
Ao educador cabe examinar e acompanhar o comportamento de cada criança dentro da expectativa de um padrão médio normal, assim como avaliar o resultado da aprendizagem de acordo com a media do grupo ao qual a criança pertence.
É de sua competência não deixar exclusivamente por conta das ‘diferenças individuais’ os possíveis problemas, algumas vezes de ordem apenas psicológica (família ou social), mas detectar prováveis causas orgânicas – neste caso, além do encaminhamento psicológico, também o acompanhamento médico (neurologista) se faz necessário (Id. Ibid, p.158-159)
Já que seria da competência do professor, porque não colocar disciplinas nas faculdades de educação que favoreçam o desempenho deste na sala de aula. A prioridade atualmente está para diminuir o currículo, de quatro para três, a UNEB (Universidade do Estado da Bahia) no final do ano de 2003 para início de 2004, mudou o currículo, modificando de três anos para quatro, ou quatro anos e seis meses, mas o que mais importa é que disciplinas serão acrescentadas? Qual a importância desta para o professor? Já que infelizmente não temos disciplina que nos coloque numa situação segura principalmente em relação a saber lidar com o aluno, dentro de uma sala de aula.
Dentre as inúmeras abordagens, foram selecionadas algumas:
Para alguns médicos, psicólogos ou educadores, distúrbios são problemas ou dificuldades no processo de ensino-aprendizagem. Isso porque, para esse grupo, distúrbios são perturbações de origem biológica, neurológica, intelectual, psicológica, sócio-econômica ou educacional, encontradas em escalares, que podem tornar-se problemas para a aprendizagem dessas crianças (Tarnopal[1], ap. Drouet, 1990, p.91)
Um segundo grupo, por sugestão de Kirk e Baterman, em 1962, prefere reservar a expressão distúrbios de aprendizagem apenas para aqueles casos de crianças com dificuldade de aprendizagem de causas desconhecidas, uma vez que essas crianças não apresentam defeitos físicos, sensoriais, emocionais ou intelectuais de espécie alguma. Suas dificuldades recebiam várias designações, tais como: hiperatividade, hipercinesia, síndrome de criança hiperativa, disfunção cerebral mínima, dificuldade de aprendizagem ou disfunção na aprendizagem (Kirk & Baterman 1962, ap. Drouet, 1990, p.91-92)
Segundo Alan Ross, em seu livro Distúrbios psicológicos na infância, o termo distúrbio abrange uma variedade de problemas de diferentes espécies e devido a causas diferentes, o que pode ocasionar confusão no diagnóstico e mesmo tratamento. Todas essas crianças têm em comum a dificuldade de aprendizagem em condições normais de sala de aula. Ross então sugere que o termo distúrbio de aprendizagem fique restrito apenas a casos cujos sintomas revelem dificuldades de atenção seletiva.[2] Essas dificuldades significam um retardo no desenvolvimento mental da criança. Geralmente não são deficiências irreversíveis, mas uma forma de imaturidade. (Allan Ross ap. Drouet, 1990, p.92)



[1] Tarnopal, Distúrbios de leitura, uma perspectiva internacional, ap. Drouet, 1990, p.91)
[2] entenda-se por atenção seletiva a capacidade de selecionar, dentre os numerosos estímulos recebidos, os que interessam, e de responder a um ou a um certo número deles ao mesmo tempo.

O USO DO AUTORITARISMO COMO PRÉ-REQUISITO PARA DISCIPLINAR




Uma outra tendência presente no campo da educação é a de associar a disciplina à tirania. Qualquer tentativa de elaboração de parâmetros ou definição de diretrizes é vista como prática autoritária, deformadora ou restritiva, que ameaça o espírito democrático e cerceia a liberdade e espontaneidade das crianças e jovens. A disciplina assume uma conotação de opressão e enquadramento. Portanto, todas as regras e normas existentes na escola devem ser subvertidas, abolidas ou ignoradas. Sendo assim, apresentar condutas indisciplinadas pode ser entendida como uma virtude, já que pressupõe a “coragem de ousar”, de desafiar os padrões vigentes, de se opor à tirania muitas vezes presente no cotidiano escolar. (REGO, 1995, ap. Aquino, 1996, p.86).
Entendemos, todavia, que estes temas podem (e devem) ser interpretadas de uma outra maneira, já que, vista sob aqueles ângulos, a questão da indisciplina (ou da disciplina) pode servir, de um lado, para justificar práticas despóticas e, de outro, para estimular uma espécie de tirania às avessas, na qual o projeto pedagógico fica submetido à vontade da criança ou do adolescente. (Id. Ibid.)
Acredito que devido a postura da escola, seus diretores, por exemplo, impondo uma disciplina massacradora, deva trazer por muitas vezes conflitos, estes provocados em sua maioria pela falta de preparo da escola, ou do professor, em lidar com o aluno, que muitas vezes é trazido da família para escola com outra formação cultural, muitas vezes sem limites ou por muitas vezes, ou quase sempre desobedientes e encontram professores em sua maioria despreparados para eles, que para conterem à indisciplina estão dispostos até mesmo a tiranizar, mesmo em escolas que se dizem democráticas e modernas, podemos encontrar esses professores e essas escolas governadas por ditadores da ordem.
Infelizmente para obter controle na sala de aula, alguns professores, por falta de outros meios desconhecidos por estes, preferem tratar dos alunos como numa ditadura, em que o certo é sempre o professor.
A autora Passos[1], em seu texto comenta Enguita[2]:
‘Entretanto, a maioria das instituições é reconhecida pela sociedade por algo que elas têm em comum, e que Enguita (1989) expressa como uma”observação pela manutenção da ordem”. Mesmo defendendo que a ordem é necessária em algumas situações de caráter mais técnico, ele chama a atenção para o fato de que a maioria dos professores justificam como necessidade pedagógica, além de concebê-la como condição imprescindível de uma instrução eficaz. Basta recordarmos nossa própria experiência como aluno ou professor, ou visitar uma sala de aula, para evocar ou presenciar um rosário de ordens individuais e coletivos para não fazer ruído, não falar, prestar atenção, não movimentar-se de um lugar ao outro’.
As tão conhecidas relações entre autoridade e hierarquia, em que são inseridos os alunos nas instituições escolares, vão criando uma educação para a docilidade, desenvolvendo nos indivíduos uma dependência quase infantil, que os impede de crescer como sujeitos auto-suficientes e automotivados condições estas favoráveis para o exercício de criatividade, do raciocínio e para o amadurecimento das relações. (Passos apud Aquino, p.119)
O exercício constante da autoridade sobre eles é uma forma de fazer-lhes saber e recordar-lhes que não podem tomar decisões por si mesmos, que não se pode depositar confiança neles, que devem estar sob tutela. (Enguita 1989, p.165 apud Aquino, 1996, p.119)



[1] Laurizete Ferragut Passos – Pedagoga, mestre em Educação pela UNICAMP e doutorada pela Fac. De Educação da USP.
[2] Enguita, 1989, p.163 apud Passos ap. Aquino, 1996, p. 119.